SÃO CARLOS (SP) — Enquanto os grandes marketplaces de entrega concentram suas atenções e investimentos pesados nas capitais, uma transformação silenciosa e acelerada ocorre nos municípios do interior do Brasil. À frente desse movimento está a Come Come Delivery, plataforma de intermediação e logística urbana que nasceu como um spin-off de uma agência de marketing digital fundada em 2009 e hoje se consolida como uma rede nacional de microfranquias digitais.
Com presença em mais de 130 municípios e a meta arrojada de alcançar 1.000 cidades até meados de 2027, a empresa adotou um posicionamento que desafia os padrões convencionais do franchising: isenção total de taxa de franquia, operação corporativa 100% remota, comissão de apenas 10% para os restaurantes e split automatizado de pagamentos que elimina bitributação para os operadores.
Nesta entrevista, o fundador e Diretor Executivo (CEO) da marca, David Gonçalves, explica como uniu mais de 16 anos de experiência em marketing e franquias para desenhar um modelo lean (enxuto), lucrativo para o operador local e sustentável para a cozinha dos comerciantes.
A Entrevista
Redação: David, a Come Come Delivery não nasceu do dia para a noite. Ela carrega uma bagagem prévia de mais de uma década no franchising. Como foi essa transição da agência de marketing para o aplicativo de entregas?
David Gonçalves: Nossa história começou bem antes do aplicativo. Em 2009 fundamos a RD Commerce, uma agência focada em marketing digital e negócios locais. Ao longo de 16 anos de atuação, expandimos a empresa pelo modelo de franchising e chegamos a formar quase 50 franqueados em várias regiões do país.
Em 2020, durante a pandemia, os próprios clientes dos nossos franqueados começaram a pedir socorro. Os restaurantes viam nos aplicativos tradicionais um custo asfixiante e precisavam de uma alternativa local viável. Ouvindo essa demanda real da ponta, decidimos estruturar um MVP bem simples: era essencialmente um cardápio digital dentro de um aplicativo, sem split financeiro, sem logística automatizada, apenas para testar a viabilidade. Levamos o sistema para cidades onde já tínhamos operadores da agência e, em seis meses de validação, formatamos um teste de franquia com 20 praças piloto vendidas a preço de custo. A resposta foi imediata. Em agosto de 2020, fizemos o spin-off oficial, criamos um CNPJ independente e passamos a investir em engenharia própria de software para não depender de plataformas de terceiros.
Redação: O mercado de software para alimentação é disputado por centenas de ERPs e sistemas de PDV. Qual é o posicionamento técnico da Come Come Delivery perante os lojistas?
David Gonçalves: Tivemos uma clareza estratégica desde o início: nós não queremos ser um ERP. Gestão de estoque, controle de mesas e emissão de nota fiscal são tarefas burocráticas para as quais já existem centenas de softwares competentes no mercado. A nossa plataforma existe com outro propósito: nós somos uma máquina de marketing e alavanca de vendas para o comerciante.
Cada linha de código e cada atualização que nossa equipe desenvolve é voltada para colocar dinheiro no caixa da loja. O lojista tem em mãos CRM para reativar clientes inativos, automação com WhatsApp, ferramentas de cupons e um sistema nativo de cashback onde o saldo do consumidor fica retido exclusivamente para novas compras no próprio estabelecimento dele. Nós resolvemos a atração e a retenção de clientes, que é a real dor de quem está com a cozinha aberta.
Redação: Um ponto crítico no relacionamento entre grandes apps e restaurantes são as imposições contratuais. Como a Come Come lida com preços e campanhas?
David Gonçalves: A nossa filosofia é a autonomia absoluta. No nosso ecossistema nada é imposto. Vemos grandes redes obrigando o comerciante a entrar em listas promocionais pesadas ou a dar cupons patrocinados pelo próprio bolso para não sumir do algoritmo de busca. Aqui, o lojista não é obrigado a dar desconto se isso ferir o custo dele. Ele pode vender o cardápio integralmente pelo preço normal sem sofrer penalidades de visibilidade.
Nosso operador na cidade atua como um consultor comercial parceiro: ele educa, orienta e mostra as melhores práticas de atração, mas quem dita o preço e a promoção é quem paga a conta da cozinha. Além disso, trabalhamos com uma comissão média padronizada em 10%, o que representa quase um terço do que os grandes aplicativos cobram. É uma taxa justa, amplamente aceita, que devolve margem para o negócio local.
Redação: A logística também vai além da comida no modelo de vocês. Como funciona a operação de entregas?
David Gonçalves: Desenvolvemos uma estrutura híbrida com quatro camadas. Primeiro, o restaurante que já tem motoboys pode continuar com a rotina dele sem integração. Segundo, ele pode integrar esses mesmos entregadores à nossa plataforma, ganhando rastreio em tempo real no mapa e rotas otimizadas para o cliente. Terceiro, o estabelecimento pode acionar a frota compartilhada de entregadores parceiros cadastrados no aplicativo.
E temos um diferencial de peso: o sistema de entregas avulsas. Qualquer comércio local — seja uma loja de roupas, eletrônicos, autopeças, ótica ou materiais para construção — pode solicitar um entregador parceiro direto pelo sistema para levar uma mercadoria rápida, sem precisar cadastrar vitrine no app. Isso descentraliza o delivery: o franqueado fatura com o comércio de rua durante o dia e com a gastronomia durante a noite.
Redação: Vocês estabeleceram uma meta arrojada de alcançar 1.000 cidades até meados de 2027. Para acelerar esse plano, decidiram zerar a taxa de franquia. Como a conta fecha sem essa cobrança inicial?
David Gonçalves: Esse é o ponto que mais surpreende o mercado. O franchising tradicional costuma lucrar na largada: cobra R$ 40 mil a R$ 60 mil de taxa de franquia, vende a licença e transfere todo o risco para o operador. Nós escolhemos a rota do blitzscaling: abrimos mão da taxa de adesão para remover o atrito de entrada e atrair rapidamente os melhores operadores locais.
A conta fecha por dois pilares fundamentais. O primeiro é a eficiência interna: a Come Come Delivery é uma empresa 100% remota (remote-first). Não temos sedes faraônicas; nossos desenvolvedores, suporte e analistas de tráfego estão distribuídos por cidades como Brasília, São Paulo e Fortaleza. Cortamos custos de infraestrutura no detalhe todos os meses para repassar esse valor reduzido em forma de uma mensalidade acessível de servidor para o franqueado.
O segundo pilar é a tese de longo prazo: nosso objetivo é escala nacional, volume transacionado e ganho de market share. Nós ganhamos no crescimento contínuo da rede e no valuation da empresa.
Redação: Muitos investidores desconfiam quando veem uma franquia de custo baixo prometer margens de até 70%. Essa desconfiança chega a atrapalhar a expansão?
David Gonçalves: Com certeza. Essa é, curiosamente, a nossa principal objeção: fazer o candidato acreditar que a oportunidade é real. Como o mercado acostumou o brasileiro com taxas abusivas e contratos cheios de letras miúdas, quando apresentamos um modelo enxuto, sem taxa de franquia, onde o franqueado cobre seus custos operacionais já no segundo mês e atinge margens líquidas perto de 70%, algumas pessoas pensam que é ‘bom demais para ser verdade’.
Nós mostramos a matemática nua e crua: o franqueado opera em home office, tem apenas a mensalidade de infraestrutura e pequenos gastos com adesivos e cartazes para balcão. Ele não tem estoque, aluguel comercial nem passivo trabalhista. Temos casos reais de franqueados que, em poucos meses de trabalho comercial consistente, alcançaram R$ 7.000 a R$ 8.000 de faturamento recorrente com despesas fixas mínimas. Quando o candidato entende que nossa renda depende do sucesso dele e não de vender taxa de papel, a confiança se estabelece.
Redação: Qual é o perfil ideal de operador que a Come Come busca para liderar essas novas praças?
David Gonçalves: Nosso perfil prioritário é quem já conhece o pulso do comércio de rua e tem contato direto com os estabelecimentos locais. Vendedores e representantes de maquininhas de cartão, gerentes e proprietários de restaurantes, entregadores experientes e pessoas ligadas ao food service. Esse profissional já tem a confiança dos comerciantes da cidade, fala a mesma língua e sabe exatamente onde dói a cobrança de taxas abusivas. Também temos franqueados com rotinas flexíveis, como profissionais da saúde em escalas de plantão, que desenvolvem a praça nos dias livres.
E ninguém precisa ser especialista em anúncios na internet: nós colocamos nossos 16 anos de inteligência digital a serviço do operador. A franqueadora gerencia o tráfego pago da praça sem cobrar taxa de agência — o operador só coloca o orçamento que desejar para os anúncios locais — e ensinamos um método completo de prospecção orgânica usando Google Maps, Instagram e nosso sistema interno de captação. Quem tem energia para ir a campo encontra uma estrutura profissional pronta para construir um negócio próprio e rentável.
Para saber mais sobre o modelo de negócio, disponibilidade de concessões municipais e requisitos operacionais, acesse o canal oficial da rede em comecomedelivery.com.br.
