Pesquisa revela que quase metade da população brasileira não tem conhecimento sobre ceratocone; oftalmologista destaca sinais que podem ser confundidos com a simples necessidade de troca dos óculos.
A frequência em trocar os óculos pode ser vista como uma mudança normal na visão, especialmente durante a adolescência, mas pode também indicar a presença do ceratocone. Esta condição resulta no afinamento e deformação progressiva da córnea, o que altera sua forma para uma curvatura mais aguda e irregular, comprometendo a qualidade visual do indivíduo.
Um levantamento realizado no Brasil e publicado em julho de 2026 na Revista Brasileira de Oftalmologia envolveu 879 adultos e constatou que 45,8% dos entrevistados nunca ouviram falar da doença, enquanto apenas 31,5% afirmaram ter conhecimento sobre ela. A pesquisa ainda revelou que 42,1% dos participantes relatavam ter alergia ocular e 31,3% admitiram o ato frequente de esfregar os olhos, um comportamento que merece atenção especial em pessoas com predisposição ao ceratocone.
O oftalmologista Jae Min Lee, da Hapvida, explica que o ceratocone possui uma relação com fatores genéticos e normalmente se manifesta durante a adolescência. “Apesar de existir uma predisposição genética para o ceratocone, a condição geralmente começa a se mostrar entre os 13 e 14 anos. A progressão acontece ao longo da adolescência e no início da fase adulta, estabilizando em média por volta dos 25 anos. Após os 30 anos, é raro observar evolução”, comenta.
Nos estágios iniciais, a doença pode não apresentar sintomas evidentes. Um dos primeiros sinais frequentemente observados é justamente a mudança no grau dos óculos, especialmente com o aumento do astigmatismo.
“O ceratocone muitas vezes se inicia com um aumento na graduação dos óculos. O aumento do astigmatismo é o principal indicativo, embora a miopia também possa se intensificar. Como os pacientes conseguem enxergar melhor após a troca dos óculos, essa condição pode ser inicialmente interpretada apenas como uma atualização necessária da correção visual”, enfatiza o especialista.
Contudo, à medida que a doença avança, a correção óptica pode não ser suficiente para proporcionar uma visão adequada. “Quando há um aumento significativo na graduação – principalmente do astigmatismo – é crucial que o oftalmologista fique atento. Nem todo incremento no grau indica ceratocone, mas mudanças marcantes ou frequentes em crianças e adolescentes devem ser avaliadas. Caso haja suspeita, exames específicos poderão ser solicitados para confirmar ou excluir a possibilidade da doença”, esclarece Jae Min Lee.
Importância do diagnóstico precoce
Reconhecer o ceratocone em suas fases iniciais é fundamental pois existem tratamentos que podem interromper ou estabilizar seu progresso. Entre eles está o crosslinking corneano, um procedimento que aumenta a resistência biomecânica da córnea e pode impedir a evolução do ceratocone nos pacientes.
“Um diagnóstico precoce altera significativamente a evolução da condição porque possibilita identificar a doença antes que ela avance. Embora os óculos possam corrigir temporariamente a visão, eles não previnem o progresso do ceratocone. Quando há indicação para isso, o crosslinking consegue estabilizar a córnea e interromper o avanço da doença”, afirma o oftalmologista.
Entretanto, vale ressaltar que esse procedimento não cura completamente. “O paciente afetado pelo ceratocone continuará com essa condição; portanto, o objetivo do tratamento é garantir sua estabilização, especialmente quando conseguimos intervir nas fases iniciais”, conclui.
Sinais de alerta
- Aumento rápido ou frequente na graduação dos óculos;
- Especialmente aumento acentuado do astigmatismo;
- Progressão acelerada da miopia;
- Visão distorcida ou embaçada;
- Dificuldade em enxergar adequadamente mesmo com óculos atualizados;
- Necessidade constante de troca na correção visual;
- Coceira nos olhos ou hábito recorrente de esfregá-los;
- Alterações visuais iniciadas durante a adolescência.
Cuidados essenciais
- Crianças e adolescentes devem passar por consultas oftalmológicas regulares;
- Mudanças frequentes no grau óptico precisam ser investigadas por um especialista;
- Evitar coçar ou esfregar os olhos repetidamente;
- Pessoas com alergias oculares e coceira constante devem buscar atendimento médico;
- Embora os óculos corrijam temporariamente a visão, não impedem o avanço do ceratocone;
- Exames específicos são necessários quando há suspeita da doença para confirmar diagnósticos;
- A identificação precoce das alterações aumenta as chances de estabilização através de tratamento adequado.
