Empresário do setor alimentício há mais de 30 anos afirma que inteligência artificial, automação e dados só fazem sentido quando contribuem para qualidade, eficiência, sustentabilidade e desenvolvimento das pessoas
A adoção de inteligência artificial, robótica, sensores, visão computacional e sistemas de dados em tempo real está transformando fábricas em diferentes setores. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, porém, a modernização tecnológica só representa avanço real quando existe clareza sobre o problema que se pretende resolver.
Na avaliação do empresário, uma fábrica pode reunir equipamentos de última geração e ainda entregar um produto mediano. Por isso, antes de perguntar o que pode ser automatizado, as empresas deveriam definir o que desejam transformar em suas operações.
Tecnologia não garante qualidade por si só
Uma linha automatizada pode aumentar velocidade, reduzir custos e monitorar milhares de variáveis. Isso, entretanto, não significa que o produto final será necessariamente superior.
A tecnologia amplia a capacidade de uma organização, mas também pode tornar decisões ruins mais eficientes.
Uma empresa pode utilizar inteligência artificial para reduzir alguns centavos de custo sacrificando características do produto. Outra pode empregar a mesma ferramenta para diminuir desperdícios, aprimorar processos e elevar consistência.
A diferença está menos na tecnologia utilizada e mais nos objetivos definidos pela empresa.
O problema deve vir antes da ferramenta
A lógica da Indústria 4.0 costuma começar pelas possibilidades tecnológicas disponíveis. Para Edson Braga, a ordem deveria ser diferente.
Antes de escolher robôs, sensores ou sistemas de inteligência artificial, gestores precisam identificar quais problemas desejam solucionar.
Em alguns casos, a resposta será automação. Em outros, poderá estar em treinamento, mudança de layout, revisão de processo ou seleção de matérias-primas.
Nesse cenário, modernização deixa de significar simplesmente adquirir equipamentos mais sofisticados e passa a representar a escolha da solução mais adequada para cada necessidade.
Dados precisam gerar decisões
As fábricas já conseguem acompanhar variáveis como temperatura, pressão, umidade, rendimento, paradas, energia, estoque, qualidade e perdas com nível de detalhe cada vez maior.
O desafio passa a ser transformar esse volume de informação em conhecimento aplicável.
Um sistema pode identificar desperdício ou apontar que determinada matéria-prima oferece maior rendimento. A decisão sobre como agir diante dessa informação continua dependendo de pessoas.
É nesse ponto que tecnologia e liderança se encontram.
Quanto maior o volume de dados disponível, maior também é a importância de julgamento, critérios e capacidade de decisão.
Inteligência artificial não define os valores da empresa
Ferramentas de inteligência artificial podem otimizar custos, margens, produtividade e velocidade de produção.
Elas não determinam, entretanto, quais limites uma organização deseja estabelecer.
A decisão de preservar determinado ingrediente, manter um padrão de qualidade ou retirar uma pessoa de uma tarefa considerada inadequada continua sendo humana.
Algoritmos podem buscar o objetivo definido. Cabe à liderança decidir qual objetivo merece ser perseguido.
Tecnologia pode reduzir variações nos alimentos
No setor alimentício, um dos campos mais relevantes para a digitalização está no controle de variabilidade.
Matérias-primas naturais apresentam diferenças de umidade, composição e comportamento. Fermentação, temperatura e condições ambientais também podem modificar resultados.
Sensores, análise de dados e visão computacional podem ajudar a identificar alterações com antecedência e ajustar parâmetros de produção.
Em vez de utilizar tecnologia para descaracterizar alimentos, a indústria pode empregá-la para compreender melhor as variações naturais e aumentar consistência.
Consumidor não precisa perceber a tecnologia
Nem toda inovação precisa estar visível.
Equipamentos sofisticados e sistemas digitais podem impressionar dentro de uma fábrica, mas o consumidor tende a perceber principalmente aquilo que chega à mesa.
Consistência, segurança, textura, conservação e experiência de consumo são resultados mais relevantes do que a quantidade de tecnologia instalada.
Nesse sentido, algumas das soluções industriais mais eficientes podem ser justamente aquelas que trabalham nos bastidores.
Sustentabilidade pode estar dentro do processo
A digitalização também amplia as possibilidades de controle sobre água, energia, matérias-primas, embalagens e resíduos.
Sensores e sistemas de gestão podem identificar vazamentos, reduzir consumo, planejar produção e diminuir descarte.
Essa abordagem aproxima sustentabilidade e eficiência.
Reduzir desperdícios não representa apenas menor impacto ambiental. Também pode gerar economia e produtividade.
Para a indústria, decisões sustentáveis tendem a ganhar força quando também fazem sentido operacional e financeiro.
Fábrica inteligente precisa aprender com a operação
Automatizar não é o mesmo que aprender.
Uma fábrica automatizada executa tarefas de maneira repetitiva. Uma organização verdadeiramente inteligente consegue utilizar cada lote, desvio, parada ou reclamação como fonte de conhecimento.
Ao acumular essas informações ao longo dos anos, empresas constroem um patrimônio difícil de copiar.
Concorrentes podem adquirir equipamentos semelhantes e utilizar os mesmos softwares, mas não conseguem reproduzir imediatamente décadas de aprendizado incorporado aos processos e à cultura.
Pessoas continuam no centro da transformação
A expansão tecnológica também exige novas estratégias de qualificação.
Uma fábrica não pode ser considerada inteligente apenas porque utiliza máquinas avançadas se suas equipes não conseguem participar dessa transformação.
Automação pode retirar profissionais de atividades repetitivas, reduzir riscos e ampliar acesso a informações, mas precisa ser acompanhada por treinamento e desenvolvimento.
Na avaliação apresentada, a tecnologia deveria aumentar a capacidade humana, e não apenas substituir tarefas.
Retorno sobre tecnologia vai além da redução de custos
Investimentos industriais precisam apresentar retorno financeiro, mas esse retorno pode ser analisado por diferentes perspectivas.
Redução de desperdício, melhora na qualidade, menor consumo energético, aumento da segurança, capacitação profissional e maior confiabilidade operacional também contribuem para o valor de uma companhia.
Uma tecnologia que melhora apenas um indicador no curto prazo pode ser útil.
Já aquela que fortalece diferentes áreas da empresa durante anos pode produzir uma transformação estrutural.
Indústria 4.0 e 5.0 precisam ter direção
Novos conceitos continuarão surgindo.
Indústria 4.0, Indústria 5.0, inteligência artificial industrial e fábricas autônomas devem ocupar cada vez mais espaço nas discussões sobre produção.
Para Edson Braga, porém, o nome da tecnologia é menos importante do que sua aplicação.
Empresas podem utilizar ferramentas avançadas apenas para perseguir objetivos antigos ou aproveitar essas capacidades para elevar suas ambições em qualidade, produtividade, segurança, sustentabilidade e formação profissional.
O legado tecnológico não está apenas nas máquinas
Equipamentos envelhecem, softwares são substituídos e tecnologias que hoje parecem revolucionárias tendem a se tornar comuns.
Por isso, o patrimônio tecnológico mais duradouro pode estar em elementos menos visíveis.
Conhecimento acumulado, cultura de inovação, pessoas qualificadas e capacidade de aprender permanecem mesmo depois que máquinas são substituídas.
Na visão de Edson Braga, uma empresa preparada para o futuro não é necessariamente aquela que possui o maior número de tecnologias, mas a que desenvolve capacidade permanente de evolução.
Antes de investir em uma nova solução, uma pergunta pode ajudar a definir o caminho:
“O que queremos deixar melhor?”
A resposta pode estar na qualidade, no processo, nas pessoas, na sustentabilidade ou na experiência do consumidor.
Quando existe clareza sobre esse objetivo, a tecnologia passa a cumprir seu verdadeiro papel: ser uma ferramenta para o progresso, e não um fim em si mesma.
