Tag: Mulher trans

  • Empregabilidade Trans: Maite Schneider e Paula Lavigne Silva expõem verdades incômodas em entrevista impactante

    Empregabilidade Trans: Maite Schneider e Paula Lavigne Silva expõem verdades incômodas em entrevista impactante

    SÃO PAULO — Em vídeo forte e necessário, criadora trans que iniciou sua transição após os 40 anos entrevista fundadora da TransEmpregos sobre o futuro profissional da população trans no Brasil.

    A criadora de conteúdo e influenciadora Paula Lavigne Silva lançou o segundo episódio de sua série de entrevistas no YouTube, trazendo uma convidada de peso: Maite Schneider.

    Quem é Maite Schneider? Referência nacional em diversidade e inclusão, Maite vai muito além da fundação da TransEmpregos. Ela é LinkedIn Top Voice com mais de 100 mil seguidores, embaixadora da Rede Mulher Empreendedora e cofundadora da Integra Diversidade. Sua trajetória, que une ativismo histórico e consultoria corporativa, faz dela uma das vozes mais respeitadas quando o assunto é humanizar o mercado de trabalho.

    O tema da conversa toca em um dos pontos mais sensíveis da inclusão no Brasil: a empregabilidade de pessoas trans. Durante o papo, Maite e Paula não apenas expõem dados preocupantes, mas também compartilham histórias reais, dilemas pessoais e estratégias para quebrar barreiras.

    Com mais de 11 mil pessoas trans já empregadas via TransEmpregos desde 2013, Maite traz um panorama direto: 

    “Não existe meritocracia quando pessoas com duas ou três pós-graduações continuam sendo preteridas apenas por serem trans. E isso acontece todos os dias.”

    Paula Lavigne Silva, que vive sua transição e autoaceitação publicamente, compartilha suas próprias angústias com franqueza durante o papo: 

    “A gente passa por todas as fases, da dúvida, da vergonha, do medo. E quando entende quem é, vem a questão: como vou me sustentar? E se me mandarem embora só por ser eu?”

    Verdades que precisam ser ditas

    A entrevista denuncia práticas sutis de exclusão no mercado corporativo, como o medo de se revelar, os códigos sociais que afastam pessoas LGBTQIAPN+ da liderança e a pressão estética pela “passabilidade”.

    “Nós somos levadas a acreditar que temos que ter dois LinkedIns, dois Instagrams, duas vidas. Quando na verdade, a empresa deveria querer que a gente fosse uma só, a verdadeira”, diz Maite no vídeo.

    Assista à entrevista completa

    O conteúdo já está disponível e é material indispensável para quem busca entender o mercado atual.

    Para entender os desafios do mercado, confira o episódio focado em Carreira e Empregabilidade:

    🔴 VÍDEO: VERDADES SOBRE O MERCADO TRANS

    Quer conhecer a história de vida da Maite antes de falar de negócios? Clique aqui para ver a Parte 1 da entrevista, onde ela conta sobre sua transição e o início do movimento.

    Sobre Paula Lavigne Silva

    Criadora de conteúdo, empreendedora e mulher trans, Paula combina força, afeto e autenticidade. Inspirada no estilo punk-rock de Avril Lavigne e eleita Rainha Cross em 2024, tornou-se símbolo de coragem para quem busca se entender e ocupar espaços.

    Conheça mais em: www.paulalavigne.com.br 
    YouTube: @paula_lavigne_silva

  • Mulher trans que viveu na Cracolândia faz faculdade e sonha ser assistente social: ‘Conheci tanta mulher maravilhosa, quero fazer parte disso’

    Mulher trans que viveu na Cracolândia faz faculdade e sonha ser assistente social: ‘Conheci tanta mulher maravilhosa, quero fazer parte disso’

    Após ser aceita pelo programa Redenção, da Prefeitura de SP, Ravenna conseguiu completar ensino médio a distância com a ajuda de assistentes sociais, começou seu tratamento hormonal e passou por desintoxicação. Hoje afirma: ‘Tem saída’.

    “A rua é acolhedora e destruidora ao mesmo tempo”, reflete Ravenna Victoria ao se lembrar dos sete anos de calçada vividos na Cracolândia. Está “limpa” há um ano e dois meses e vive na região de Ermelino Matarazzo, na Zona Leste, perto do Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica (Siat III) que a acolheu e onde morou por quase dois anos.

    Mulher trans, Ravenna, de 26 anos, tem longas tranças, unhas vermelhas em gel e veste uma camiseta com a palavra “orgulho”. Nos braços, tatuagens com temáticas infantis. Garota superpoderosa. Mickey. Liza Simpson. É na laje do equipamento da prefeitura que conta sua história ao g1.

    Ela volta no tempo, especificamente para 2013, na cidade de Havenna, Itália. “Foi lá que contei para minha mãe que era trans. Ela então me batizou com o nome Ravenna”, lembra. Tinha 16 anos. No ano seguinte, no Dia de Finados, sua mãe morreu. Ela não comenta sobre o pai. Aos 17, se mudou para São Paulo. Nascida em São Roque, conhecida como a cidade do vinho no interior paulista, quis cursar inglês na capital. “Aí aconteceram os perrengues da vida. Caí na rua.”

    Em março de 2020, Ravenna completava sete anos de calçada quando foi levada num camburão do Denarc junto com dezenas de suspeitos. O coração acelerou. Ela descreve aquele momento como o mais marcante da sua vida. “Fui a primeira a conseguir liberdade. Ainda era nova, precisava resolver aquilo.”

    Sua primeira cama foi um beliche do quarto 10 no Siat II do Glicério. Ficou lá por oito meses. Depois foi chamada para a unidade de Ermelino Matarazzo. O espaço já foi um motel e hoje pertence à Prefeitura de São Paulo. Sua primeira impressão foi a de um local privilegiado.

    ”No começo foi um baque. Sair de uma situação extremamente vulnerável e ter meu quarto próprio, meu próprio banheiro”, lembra, sobre sua chegada ao Siat III em outubro de 2020.

    O período que seguiu foi permeado por atividades de redução de danos: oficinas de inclusão digital, culinária, esporte, música, atividades externas com acesso à cultura e lazer. Uma das atividades preferidas da Ravenna era o vôlei. Também fazia o uso da cannabis como forma de amenizar o desejo de uso da droga de abuso.

    A recuperação de dependentes químicos é uma luta diária. “No começo, recaída era meu segundo nome. Teve uma vez que a própria equipe aqui foi me buscar lá na Cracolândia.” Depois, conta, nunca mais teve uma recaída feia. “Só deslizes.” Ravenna deixou o Siat III em 29 de agosto de 2022.

    O presente de Ravenna
    “Agora tenho minha casinha alugada”, conta. Mora com uma cadelinha chamada Stela, que adotou na Sé, e o namorado, que conheceu na Cracolândia. Mas o relacionamento só decolou durante a desintoxicação. Metade rottweiler, metade labrador, Stela segue Ravenna pelos andares do prédio de cor verde transformado em espaço de acolhimento e com capacidade para 60 pessoas.

    Faz faculdade para realizar seu sonho de ser assistente social e trabalha como orientadora socioeducativa num projeto que acolhe outras mulheres trans. “Conheci tanta mulher maravilhosa que também quero fazer parte disso, entendeu?”

    Raquel Caroline Machado, assistente social há 12 anos e que a acompanha, segura a lágrima. A futura assistente social conseguiu completar o ensino médio a distância com a ajuda das mulheres que a inspiraram a seguir a profissão. Também começou seu tratamento hormonal.

    Raquel, “a madrinha”, interrompe Victoria e diz que Duda também topou dar entrevista. Duda ocupa o quarto 34, o mesmo em que Ravenna permaneceu por quase dois anos no Siat. Alegre, Ravenna grita. Quer rever o quarto e a amiga.

    Enquanto isso, no corredor do apartamento 34, um dependente com fissura procura Raquel. Está “limpo” há semanas, mas confessa que não consegue pensar em outra coisa além do crack, por isso pede ajuda.

    O g1 encontra Duda sentada no centro da cama e “limpa” há seis meses. “Por sinal, os melhores da minha vida. Antes de vir pra cá, não fazia nada, a não ser ficar louca por aí”, desabafa. Na parede, uma bandeira LGBTQIA+.

    “Significa tudo pra mim. Sou uma mulher trans construindo minha vida novamente”, conta Duda.
    Um dia antes de conversar com o g1, Duda solicitou a troca de nome e gênero em sua documentação. Está no terceiro ano do ensino médio e sente-se mais bonita. Pretende fazer faculdade. “Quero ser assistente social. Este é meu sonho.” Raquel segura a lágrima de novo.

    Assistentes e vínculos
    “Acho que todas as meninas que me atenderam e me acolheram durante essa jornada me inspiram. Eu lembro o nome de todas: Rosa, Jade, a Negona, mãe Kátia. Tem a Vivi, tem a Perla, tem a Rachel. Tem a Patinha, todas. Se acontece uma coisa comigo aqui, todas sabem.” Questionada se alguém, fora “as meninas”, a inspira, é categórica: “Não. Minha família é aqui, nega. Elas são minha família.”

    Perla Maria Pinho Bejar, gerente da assistência do Siat II Glicério, enviou uma mensagem ao g1 ao saber que foi mencionada. “Eu acho que sempre disse muitos ‘nãos’ pra Ravenna. Fico muito agradecida.”

    Ravenna balança as tranças: “Amiga, é a Nova Era. Ravenna é uma futura assistente social”.
    A “madrinha” Raquel sempre trabalhou em cenários com potencial para violência e repete diversas vezes a palavra “vínculo” como se esta fosse a fórmula para que sua profissão seja valorizada entre pessoas em vulnerabilidade social. “É muito desafiador lidar com as dores, o abandono, a violência.”

    A assistente social conta, em outro momento, que as atividades recomendadas para reduzir a fissura do dependente que a procurou naquela tarde foram fazer pão e correr no pequeno ginásio até cansar.

    Ela se lembra de uma frase que escutou recentemente: “Você não desistiu de mim quando eu já havia desistido”. E defende que o assistente social olhe para além da aparência. “A droga aparenta ser só o começo, e tampouco será o fim. A ferramenta é o vínculo.”

    Duda permanece no quarto 34. Está focada em seus planos. Com relação à retificação do nome, aguarda os trâmites legais. A madrinha Raquel observa o reencontro das amigas sem censura, apenas com um riso de canto, orgulhosa do seu trabalho.

    “Tem saída”, afirmam.

    Fora da Cracolândia, as duas mulheres trans acolhidas pelo programa municipal Redenção inspiram-se em assistentes sociais.